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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um beabá para a al-Qaeda


12/12/2012 - EUA e al-Qaeda: estranhos companheiros de cama?
- original em 10/12/2012 por Hassan N. Gardezi, no blog Countercurrents
- Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

(...) there is no other shelter hereabout. Misery acquaints a man with strange bedfellows.
(...) Não há outro abrigo à vista, para mim. A miséria nos apresenta a bem estranhos companheiros de cama...
[Trinculo, em The Tempest, William Shakespeare, ato II, cena 2 [*]]

Introdução
Há guerra, nos dias que correm, ainda, entre uma coalizão de estados liderada pelos EUA, e al-Qaeda, que já entra na segunda década.

Um dos lados em Guerra, os EUA, dispensa introdução. Depois do colapso da União Soviética, passou a ser a única superpotência e é conhecida nos quatro cantos do mundo como a nação mais poderosa em termos políticos, militares, econômicos e socioculturais.

A al-Qaeda (acima), contudo, não é vista assim tão claramente como força global e exige definições e alguma introdução.

A al-Qaeda surgiu da jihad dos anos 1980s contra o Partido Popular Democrático do Afeganistão [orig.Peoples Democratic Party of Afghanistan
(PDPA)] em Kabul. Essa jihad foi mobilizada pelos EUA, [1] em colaboração com a realeza saudita e o ditador militar paquistanês, general Zia. Os sauditas financiaram abundantemente a jihad com a riqueza advinda de seu petróleo, mas a contribuição dos sauditas que, ao final, revelou-se a mais decisiva, foi Osama bin Laden, cuja chegada ao Afeganistão foi acertada entre a CIA e o chefe do serviço secreto saudita, príncipe Faisal al Turki (foto).

Depois que a União Soviética retirou suas tropas do Afeganistão, em 1989, Osama, figura encarnada do guerreiro jihadista perfeito, e alguns de seus companheiros árabes fundaram a organização chamada al-Qaeda, com o objetivo de prosseguir sua jihad contra o “infiel” norte-americano, o qual, para eles, desnaturava a terra santa do Islã com seus soldados já se implantando na Arábia Saudita, no início da primeira Guerra do Golfo.

Mas, depois do início, a organização passara por modificações na constituição, na esfera geográfica de atividade e nas crenças e objetivos. A al-Qaeda que há hoje, seja como constructo político brotado de dentro do establishment norte-americano, seja como realidade existencial, reúne, por laços fluidos de associação, uma pluralidade de grupos e indivíduos, que operam num plano transnacional, com missão partilhada e táticas comuns a todos, com vistas a cumprir aquela missão. Os grupos associados à al-Qaeda hoje vão do Talibã afegão e paquistanês, aos grupos Ansar al Sharia da Líbia e Frente Al Nusra síria.

A missão da al-Qaeda e a Guerra ao Terror
A principal missão da al-Qaeda é dominar o mundo, em particular o mundo muçulmano, impondo sua específica griffe de ordem sociopolítica baseada nas leis da Xaria sunita-salafista da Arábia Saudita. Assim, a al-Qaeda pôs-se em conflito com os EUA, que também têm projeto para dominar o mundo, embora por razões diferentes que, no caso dos EUA, têm a ver com posse e controle imperiais. A al-Qaeda não tem qualquer interesse em domínio imperial, nem no fenômeno imperial, porque crê que não alcançará seu objetivo de dominar o mundo sem superar os “inimigos do Islã”, definidos, em primeiro lugar, como infiéis. Os EUA, na posição de potência global líder, é o principal dos inimigos infiéis da al-Qaeda.

George W. Bush (foto) declarou formalmente sua Guerra ao Terror, em 2001, em retaliação contra a declaração, pela a-Qaeda, de que seu alvo passava a ser os EUA, “inimigo do Islã”.

A “guerra ao terror”, apesar da denominação ambígua, é essencialmente guerra de dominação, como as duas guerras mundiais anteriores, embora com alguns trações anômalos específicos. A primeira e principal anomalia dessa guerra é o fato de que um dos combatentes não é entidade estatal: é uma entidade transnacional denominada al-Qaeda. Como o presidente Obama gosta de repetir, o objetivo da guerra ao terror é “desmontar, desmantelar e derrotar a al-Qaeda”. Embora, com sua política para o “Af-Pak” [Afeganistão-Paquistão], Obama tenha expandido o teatro da guerra para incluir o Paquistão com o Afeganistão, as operações da al-Qaeda não se limitam a esses dois países.

Nenhum continente ou país parece hoje livre de ataques reais ou potenciais dos guerreiros flutuantes da al-Qaeda. O problema complica-se imensamente, quando os EUA passam a entender, como hoje, que seria necessário fazer pactos com a chamada al-Qaeda inimiga quando parece conveniente aos EUA – exatamente o que se viu acontecer na Líbia e está acontecendo hoje, novamente, na Síria.

O pesadelo líbio
Dia 15/2/2011, houve em Benghazi, no leste da Líbia, uma manifestação pacífica de opositores ao regime de Gaddafi (foto). Enquanto o regime movia-se para dispersar a manifestação, o Conselho de Segurança da ONU entrava em ação com espantosa agilidade: dia 26/2/2011 já aprovava a primeira resolução que congelava, em bancos ocidentais, bens de Gaddafi e de vários membros de seu governo, e os impedia de viajar ao exterior; e o regime foi acusado de usar força excessiva contra os manifestantes em Benghazi.

Rapidamente, dia 17/3/2011, o Conselho de Segurança aprovou sua segunda resolução, dessa vez implantando uma zona aérea de exclusão sobre a Líbia, depois do que os países da OTAN, liderados pelos EUA, obtiveram condições ideais para usar suas forças aéreas para atacar a Líbia.

Os canais globais de notícias, entre os quais Al-Jazeera, que tem sede no Qatar, e que, antes, criara a esperança de ser algum rosto emergente de alguma via alternativa à propaganda imperialista, pôs-se imediatamente a repetir que os ataques explicavam-se perfeitamente, e que seriam efeito de uma “preocupação humanitária” pela segurança do povo líbio.

Dia 28/3/2011, o presidente Obama falou à nação, para dizer, dentre outras coisas, que:

"Confrontado por repressão brutal e crise crescente, ordenei que navios americanos posicionem-se no Mediterrâneo. Aliados europeus declaram-se desejosos de aplicar recursos para fazer parar as mortes. A oposição líbia e a Liga Árabe apelaram ao mundo, que salve vidas na Líbia. Sob meu comando, os EUA lideraram o esforço com nossos aliados no Conselho de Segurança da ONU, para aprovar a resolução histórica que autorizou a zona aérea de exclusão para deter os ataques do regime pelo ar, e autorizar todos os meios necessários para proteger o povo líbio." [2]

É citação extraordinariamente reveladora, da fala do presidente dos EUA. Aí está bem claro que os EUA controlavam e conduziam as reuniões do Conselho de Segurança; e as resoluções para a intervenção militar na Líbia foram aprovadas bem pouco tempo depois que acontecera, em Benghazi, a primeira manifestação pacífica.

Além disso, a história que Obama conta, sobre Gaddafi estar provocando “as mortes” entre seu próprio povo, e sobre “os meios necessários para proteger o povo líbio” soa, de fato, como replay da história que Bush contou sobre as “armas de destruição em massa” do Iraque. Mas, se Obama bem pode ter contado a verdade sobre mensagens que diz que recebeu dos aliados e da Liga Árabe, a referência que fez a uma “oposição líbia”, essa, sim, tem de ser examinada mais a fundo.

Desde o início dos confrontos armados, a mídia estatal líbia sempre insistiu que a oposição a Gaddafi era liderada por impiedosos agentes de operação da al-Qaeda. Mas fontes dos EUA e da OTAN ou desmentiram ou, simplesmente, não comentaram. Os seus aviões continuaram a atacar furiosamente as forças de defesa líbias, derrubaram as defesas de Gaddafi, enquanto milícias de uma oposição pesadamente armada marchava em direção a Trípoli, deixando pelo caminho um rastro de sangue e destruição.

Finalmente, dia 20/10/2011, imagens horrendas de um Muamar Gaddafi linchado até a morte, por assassinos que gritavam allah-o-akbar (Deus é grande) explodiram pelas redes globais de televisão. A narrativa dizia que estaria tentando escapar de sua cidade natal, Sirte, quando o comboio em que viajava foi atacado por aviões da OTAN, ataque que deu às milícias em terra a oportunidade para capturar Gaddafi e matá-lo.

A reação da secretária de Estado Hillary Clinton (foto abaixo), que se vê em vídeo que circulou por todo o mundo, reflete, ao que parece, correta e eloquentemente o estado de espírito de todo o establishment nos EUA ante a notícia do assassinato de Gaddafi.

A gentil e boa senhora acabava de sentar-se para uma entrevista a uma rede de televisão norte-americana em Kabul, quando lhe deram a notícia. Ela fez um segundo de silêncio e irrompeu em sonora gargalhada. Foi quando disse, sacudindo os braços no ar: “Viemos, vimos, ele está morto”.

A morte horrível de Gaddafi talvez tenha servido como alerta a outros ditadores, sobretudo aos interessados em se opor à única superpotência mundial. Mas, com certeza, não ajudou a fazer alguma paz na Líbia, nem a introduzir ali qualquer democracia.
Depois da queda do regime, alguns ministros renegados de vários gabinetes de Gaddafi, que, antes, se haviam reunido para constituir o Conselho Nacional de Transição [orig.National Transition Council (NTC)] em Benghazi, assumiram o poder na Líbia. Mas não duraram muito.

Dia 9/8/2012, o governo da Líbia, já então fragmentado em muitos subgrupos tribais e regionais, e já naufragado em lutas entre as milícias que matavam e torturavam, foi entregue a outro corpo provisório – o Congresso Nacional Geral [orig. General National Congress (GNC)], recém inventado, composto de 200 membros. Esse Congresso elegeu como presidente Mohammed Magarief, político pró-Fraternidade Muçulmana; como presidente dos Irmãos na Líbia, Magarief viveu muitos anos nos EUA e sempre fizera oposição ao regime de Gaddafi. Esse Magarief continua no posto de presidente de uma Líbia onde já não há praticamente nenhuma lei, nenhum estado e nenhuma ordem.

A conexão al-Qaeda
Já não é segredo para ninguém que a principal milícia ativa em campo na Líbia, que liderou a oposição num processo violento de “mudança de regime” foi o Grupo de Combate Islâmico Líbio [orig. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)]. São velhos conhecidos do establishment nos EUA, desde que surgiram, dos mujahideen que partiram para o Afeganistão para combater na jihad patrocinada pela CIA nos anos 1980s. De volta à Líbia, depois daquela guerra santa, decidiram derrubar o regime secularista de Gaddafi, para substituí-lo por um estado islâmico.

Ao mesmo tempo, o LIFG cuidou de separar-se rapidamente dos patrocinadores norte-americanos, associando-se diretamente à al-Qaeda. Em 2004, os EUA formalmente declararam o LIFG “Organização Terrorista Estrangeira” [orig. Foreign Terrorist Organization (FTO)].

Depois do 11/9, foi banido pelo Conselho de Segurança da ONU. E a CIA também passou a manter vigilância ativa sobre os membros do grupo; os que fossem detidos por suspeita de associação nas atividades terroristas da al-Qaeda eram entregues à Líbia, na política já conhecida de “entregas especiais” [orig. special rendition].

Um dos que foram presos (na Malásia) e entregues à Líbia, depois de ter sido mantido durante algum tempo numa prisão secreta da CIA, foi Abdel Hakim Belhaj (foto).

Belhaj também combatera na Jihad afegã dos aos 1980s patrocinada pela CIA; adiante, se uniu à al-Qaeda. Entregue à Líbia pela CIA, Belhaj permaneceu preso; mas acabou sendo libertado, depois de algum tipo de acordo de reconciliação, no final de 2010.

Retomou então suas atividades políticas, e assim estava quando, dia 15/2, aconteceu a primeira manifestação pacífica em Benghazi, contra Gaddafi; seguida imediatamente pela intervenção militar dos EUA-OTAN.

Já então no comando de uma grande milícia pesadamente armada do LIFG, Belhadj marchou sobre Trípoli, com a cobertura dos ataques aéreos da OTAN e ocupou a capital líbia, dia 23/8/2011. Para todos os propósitos práticos, foi o fim do longo período de Gaddafi no governo da Líbia. Belhadj se autoinstalou como comandante militar de Trípoli. 

Com a mudança de regime consumada nos dois meses seguintes ao assassinato de Gaddafi, Belhadj partiu para a Síria, já planejando, com o Exército Sírio Livre, a derrubada do governo de Assad.

Mas os negócios da al-Qaeda na Líbia ainda não estavam encerrados. Em 2012, no aniversário do 11/9, outra milícia associada à al-Qaeda, autodenominada Ansar al Sharia, associada a membros destacados do LIFG, atacaram o consulado dos EUA em Benghazi e executaram o embaixador dos EUA, Chris Stevens; três membros de sua equipe morreram na mesma ação.

De início, o governo Obama tentou apresentar a morte do embaixador como ato espontâneo de muçulmanos enfurecidos por causa de um filme islamófobo que circulara nos EUA. Mas, sob feroz escrutínio, em ano eleitoral, o governo de Obama foi obrigado a admitir, pelo menos, que o embaixador fora vítima de ato planejado por grupo terrorista.

O pesadelo sírio
As primeiras manifestações contra o regime de Bashar al Assad (foto) na Síria surgiram em meados de março de 2011. Podem-se listar várias razões para os protestos, dentre as quais um efeito de contágio da chamada “primavera árabe” contra o longo domínio pelo Partido Baath, liderado pela família Assad, de uma seita alawita, minoritária. Mas não se pode ignorar um importante fator: as reformas econômicas de cunho neoliberal, que tornaram excepcionalmente difíceis as condições de sobrevivência para os trabalhadores sírios mais pobres.

Nesse contexto, é preciso lembrar que, antes das tais reformas, em meados dos anos 1990s (e reformas às quais Bashar al Assad aderiu, em passo acelerado, depois de assumir o poder em 2000), o estado sírio tinha setor público consideravelmente amplo e estável, que patrocinava inúmeros programas sociais básicos. As reformas neoliberais implicaram rápida privatização das grandes empresas estatais e o desmantelamento dos programas sociais – dentre os quais preços subsidiados para alimentos e combustível. Assim se criaram graves dificuldades de sobrevivência para grande maioria dos cidadãos sírios.

Os problemas econômicos são, sem dúvida, fator subjacente que precipitou os protestos; e potências estrangeiras, além de interesses econômicos específicos que elas também representam, rapidamente cuidaram para converter a agitação popular em luta mortal por dominação política.

Os mesmos pactários europeus da OTAN e as petromonarquias da Liga Árabe, liderados pelos EUA, que haviam trabalhado para derrubar o regime de Gaddafi começaram a sabotar o governo de Bashar na Síria. Financiaram pesadamente islamistas sírios, islamistas de outros países e grupos armados da al-Qaeda, para matar e destruir, sob a hipótese de que a matança e a destruição salvariam a Síria e a converteria – dependendo de quem interprete a matança em andamento – ou numa democracia ou num califado islâmico.

Mais uma vez, o governo Obama “liderou o esforço”, dessa vez por trás das cortinas, para arrancar do Conselho de Segurança da ONU uma resolução contra o regime de Bashar al Assad, depois da qual o embuste líbio poderia ser reencenado na Síria.

A partir de junho de 2011, várias propostas de resoluções foram encaminhadas às reuniões do Conselho de Segurança, sempre em condenação contra o regime sírio, ou criando sanções internacionais contra o país; todas aquelas propostas foram rejeitadas.

Não só porque Rússia e China vetaram, mas, também, porque estados importantes com longa tradição de governos democráticos, como Índia, Brasil e África do Sul, opuseram consistentemente contra aqueles movimentos.

Todos que se opuseram a resoluções antirregime pensavam, sobretudo, por algo que a imprensa-empresa nos EUA e em vários países ocidentais fizeram de tudo para meter por baixo do tapete: a flagrante manipulação, pelos EUA e seus aliados, do Conselho de Segurança da ONU – até arrancar dali a resolução que criou a zona aérea de exclusão que viabilizou o assassinato de Gaddafi e a derrubada violenta do governo líbio. Como disse um membro de uma missão da ONU: “O fantasma da Líbia assombra a questão Síria”. [3]

Mas nem as repetidas derrotas no Conselho de Segurança da ONU conseguiu deter os EUA e seus aliados, que se mantêm agarrados ao objetivo de derrubar Bashar al Assad do governo, não importa por quanto tempo o povo sírio tenha de sofrer.

Servindo-se dos aliados árabes, em particular da Arábia Saudita e do Qatar, os EUA conseguiram garantir suprimento constante de petrodólares e armamento pesado, incluindo mísseis antiaéreos portáteis, que se disparam do ombro, às milícias sírias; assim, os EUA conseguem manter ativa a guerra por procuração que faz na Síria, como mantêm sempre alto o número de sírios mortos. [4]

De fato, o centro de atividade anti-Síria liderado pelos EUA mudou, das salas da ONU em New York, para Doha, no Qatar. Ali, no conforto de hotéis de luxo, houve uma reunião, no início de novembro de 2012, para planejar a estratégia para obter mudança violenta de regime e para ocultar a ação de milícias islamistas, armadas e violentas, da al-Qaeda, na Síria. Ao final daquela conferência, amplamente divulgada pela imprensa-empresa global dominante, foi anunciada a formação de um corpo unificado para derrubar Assad, sob a denominação, muito pretensiosa, de “Coalizão Nacional das Forças Revolucionárias Sírias de Oposição” [orig. National Coalition for Syrian Revolutionary Opposition Forces].

Ao mesmo tempo, continuam a morrer civis sírios, outros são arrancados de casa por explosões de suicidas-bombas e de carros, explosões que, todas, levam a impressão digital da Frente Al-Nusra e da al-Qaeda.

Desde a conferência de Doha a imprensa-empresa global tem sido inundada de noticiário sobre os sucessos dos combatentes das milícias, que já teriam chegado aos subúrbios da capital síria, Damasco. A BBC tem noticiado explosões também nos subúrbios de Damasco, com alto número de vítimas; o responsável seria, sempre, Bashar, pela fúria com que se recusaria a abandonar o poder. E, caso nenhum desses atos de guerra e ações terroristas conseguir derrubar o governo sírio, sempre algum novo pretexto está em produção, a favor de intervenção do tipo que se viu na Líbia, também na Síria...

Dia 3/9/2012, vários gigantes da imprensa-empresa mundial, o New York Times, a rede CNN e outros grupos passaram a divulgar novos relatos “de inteligência”, segundo os quais Bashar al Assad estaria planejando usar armas químicas contra a oposição; na sequência, surgiram imediatamente ameaças de retaliação, partidas do presidente Obama e de sua secretária de Estado, Hillary Clinton.

Dia 3/12 a BBC dos EUA até apimentou a narrativa: disse aos telespectadores que Hafez al Assad [pai de Bashar - foto] haveria, sim, usado armas químicas contra a oposição; dia seguinte, teve de desmentir-se, quando, afinal, surgiu informação correta sobre o tal “evento”. [5]

Análise
Os EUA são a principal potência hoje engajada em guerra longa e caríssima contra a al-Qaeda no Afeganistão. No contexto dessa guerra em curso, não parece razoável que os mesmos EUA estejam hoje em colusão com a al-Qaeda na Líbia e na Síria. Mas a guerra do Afeganistão tem de ser vista na perspectiva da política externa geral dos EUA, nos termos em que evoluiu desde meados dos anos 1940s.

No final da IIa. Guerra Mundial, os EUA emergiram como superpotência que entendeu oportuno lançar programa imperial mais ambicioso de dominar o mundo politicamente e economicamente, política que imediatamente pôs os EUA em contexto de intensa rivalidade com a segunda superpotência, a União Soviética. Essa rivalidade produziu a Guerra Fria, cujas repercussões globais de longo alcance são bem conhecidas hoje.

O que não parece ser muito bem conhecido no ocidente é que, nos interstícios da Guerra Fria, emergiu também outro obstáculo que se opunha às forças do imperialismo, obstáculo regional, mas nem por isso insignificante ou desimportante: o movimento conhecido como nacionalismo panárabe, que floresceu nos anos 1950s e 60s.

O nacionalismo panárabe foi dominado, no campo político, pela personalidade de Gamal Abdel Nasser (foto); e visava a unificar a vasta região do Oriente Médio e Norte da África de língua árabe, que se estende do Mar da Arábia ao Oceano Atlântico – povos que, além da língua comum, tem história, ancestrais e até religião comuns.

Em termos ideológicos, o nacionalismo panárabe foi secular e anti-imperialista, com ênfase na modernização, no progresso, na igualdade social socialista e na propriedade nacional dos recursos naturais da região, para que beneficiassem o povo árabe.

Além de Nasser do Egito, outros chefes de Estado também se identificaram com o movimento, em graus diferentes; o projeto nacionalista panárabe reuniu Ben Bella da Argélia; Houari Boumediene da Tunísia; Gaafar Nimeiry do Sudão; Hafez al-Assad e Bashar al-Assad da Síria; Saddam Hussein do Iraque; e Muammar Gaddafi da Líbia.

Para todos os objetivos práticos, o movimento do nacionalismo panárabe dos anos 1950s e 60s entrou em colapso, confrontado com a incansável oposição de grupos islamistas, como a Fraternidade Muçulmana (acima); e sob o impacto da devastadora Guerra Israel-árabes de 1967.

Mas a memória vestigial daquele movimento e o temor de que renasça sob uma ou outra forma, por iniciativa e sob a liderança de uma geração de políticos árabes cosmopolitas, mais jovens e mais letrados, continua a aterrorizar dois grandes grupos: todos os islamistas que se reúnem no projeto guarda-chuva chamado al-Qaeda; e o establishment nos EUA.

Por isso, precisamente, os EUA e a al-Qaeda, embora estejam em guerra no Afeganistão, consideram oportuno e recomendável unirem-se e formarem gangue unificada – uma espécie de derradeira trincheira, a partir da qual entendem que podem continuar a combater os inimigos de ambos, que ainda haja na Líbia e na Síria.

Notas de rodapé
[*] Epígrafe acrescentada pelos tradutores, para explicar um título que inclui comentário/ citação ao qual estão habituados os leitores de inglês, mas não os leitores brasileiros (NTs).
[1] Zbigniew Brzezinski, entrevista a Le Nouvel Observateur, 15-21/1/1998.
[2] Citado em The Atlantic, 28/9/2012
[3] 2/2/2012, The Huffington Post.
[4] 14/10/2012, The New York Times.
[5] Sobre isso, ver 8/12/2012, Robert Fisk, “Bashar al-Assad, Síria e a verdade sobre armas químicas” (em português) [NTs].

[Comentário do leitor Saiyed Danish no rodapé da versão original em inglês:
"Bold Piece! But one thing needs a re-evaluation and that is the story of the genesis of Al-Qaeda. Jason Burke, in his book Al-Qaeda, writes that it was not Osama or his affiliates who formed Al-Qaeda but the name Al-Qaeda was designed by the US only in a Manhattan court while dealing with a defector of Osama who was ready to "accept" and "confess" everything in lieu of money and green card, whatever story the US authorities would make up. Hence, based on his "confessions", the US prepared the entire picture of a global terrorist organization named Al-Qaeda, where in fact there no such organization even in the knowledge of Osama! He was only seen as a common funding guy to various terror groups which would show up at his residences and hideouts. The footage of Osama moving with his dozens of gun brandishing cohorts was were also largely deceptive for in reality they used to be the members other splinter groups walking him for their own ends. Osama was just a felicitating body of various terror groups, he was himself more of a mercenary, just a bit exalted than others. Even Osama did not know that he US authorities had decided to give his actions and network the name of Al-Qaeda but when he heard he definitely worked hard to capitalize on it. Here is also a link of a BBC documentary, Power of Nightmares, Part 3, 
http://www.youtube.com/watch?v=qATc5jRbVOA watch the entire Part 3 or begin from 23.00 minute and go on watching for another ten minutes." Thanks.] (Equipe Educom)

Fonte:
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/12/eua-e-al-qaeda-estranhos-companheiros.html

Leia também:
- Síria: paraíso "jihadi" - Pepe Escobar

Nota:
A inserção de algumas imagens adicionais, capturadas do Google Images, são de nossa responsabilidade, elas inexistem no texto original.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Hosni Mubarak - acabou

Laerte Braga, jornalista e analista político
Mubarak era um dos comandantes da força aérea egípcia na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Os radares do Egito eram fixos e voltados para Israel. Os comandantes, entre eles Mubarak, não foram capazes de perceber a manobra dos militares de Israel. Como os radares não cobriam 360 graus, os aviões israelenses contornaram-nos e destruíram toda a aviação egípcia em terra.

Nos planos do então presidente Gamal Abdel Nasser um ataque aéreo a Israel equilibraria a guerra e permitiria às forças de seu país e da Jordânia ocuparem parte do território inimigo e principalmente toda a cidade de Jerusalém.

Deu tudo errado. Em seis dias as tropas de Israel sob o comando do nazi/sionista Moshe Dayan tomaram inclusive o canal de Suez.

Nasser foi um dos principais líderes do que se conhecia como países do Terceiro Mundo e desenvolvia intensa colaboração política e econômica com a antiga União Soviética. A monumental represa de Assuan foi construída com financiamento e participação direta de técnicos soviéticos.

Tentou de todas as formas unir os governos do Oriente Médio e chegou a criar a REPÚBLICA ÁRABE UNIDA (Egito e Síria) para enfrentar o que pressentiu desde o primeiro momento. O expansionismo israelense.

Foi Nasser que à frente de um movimento militar – era coronel – derrubou a monarquia no país.

Mubarak virou vice-presidente de Anwar El Sadat, sucessor de Nasser (o presidente morreu no exercício do governo). Sadat foi o responsável pela retomada do canal de Suez na guerra do Yom Kyppur e, na euforia da primeira vitória seus generais cometeram erros primários permitindo ao comandante israelense Ariel Sharon cercar as forças egípcias e alcançar um acordo de paz. Se a guerra prosseguisse teriam perdido Suez outra vez.

A entrada em cena dos EUA se deu após Sadat negociar a devolução do Sinai ao Egito e aceitar um acordo de paz com Israel. O presidente rompeu os acordos com a União Soviética, expulsou os técnicos daquela nação e começa aí a história do Egito como aliado dos EUA.

Num outro momento, no final da década de 50, franceses e ingleses tentaram se contrapor à nacionalização do Canal de Suez e sem o apoio dos EUA (de olho na perspectiva de negócios futuros que acabaram se materializando) saíram do Egito. Naquele momento ingleses e franceses começaram a perceber que não eram mais um império e dependiam, como dependem visceralmente dos EUA (no caso da França, a ascensão de De Gaulle após a queda de René Coty e a fuga do primeiro-ministro de extrema direita George Bidault para o Brasil, a guerra da Argélia, esse país permaneceu durante o período em que foi governado pelo general – Charles Andre Joseph Marie De Gaulle – longe da OTAN – ORGANIZAÇÃO DO TRATADO ATLÂNTICO NORTE).

Sadat foi assassinado por um militar muçulmano durante um desfile em comemoração à recuperação de Suez e do Sinai. O general Anwar El Sadat, logo após o acordo mediado pelos EUA visitou Israel duas vezes e encontrou-se com o primeiro-ministro Menaguem Begin (Einstein e todas as pessoas bem informadas o consideravam terrorista, foi responsável pela explosão de um hotel antes da criação de Israel matando centenas de pessoas).

A vitória na verdade, era outra baita derrota e Hosni Mubarak, o então vice-presidente, em 1971, assume o governo.

A perspectiva de eleições livres e gerais no Egito assustava aos norte-americanos, a Israel e aos donos do poder no pós-Nasser. Em eleições regionais os partidos islâmicos haviam ganho com larga maioria. Por isso Mubarak os tornou proscritos.

O regime de Hosni Mubarak é de barbárie pura e absoluta. De subserviência total aos interesses norte-americanos e colaboração estreita com Israel, inclusive contra palestinos (muitos foram expulsos de campos de refugiados no país, como na Jordânia, outro aliado de Israel).

O descontentamento popular vem de longa data. A revolta na Tunísia serviu para acender o rastilho da indignação dos egípcios contra um governo totalitário, corrupto e que transformou o país numa colônia de interesses dos EUA e de Israel.

Os serviços secretos egípcios trabalham em estreita colaboração com a MOSSAD – organização terrorista que Israel chama de serviço de inteligência –.

Mubarak acabou. Só fica no poder se os militares promoverem um massacre para que isso se torne possível.

O que acontece neste momento no Cairo é uma tentativa de ceder os anéis e salvar os dedos, tudo mediado e dirigido pelos EUA e por Israel, no receio de perder o mais importante aliado na região. Isso poderia significa a curto prazo mudanças na Jordânia (já existem protestos no país), na Arábia Saudita, outros aliados norte-americanos.

O de buscar um governo que pareça restabelecer a democracia, só pareça, mas mantenha intactos os laços com o governo terrorista de Israel.

O grande vencedor dessa encrenca toda é o Irã. A revolução islâmica se sustenta em eleições livres, diretas e ampla participação popular nas questões de governo, a despeito do noticiário contrário da mídia podre e venal do Ocidente.

O longo período de aliança com os EUA transformou o Egito em potência militar quase equivalente a Israel (só não dispõe de armas nucleares como o estado sionista). A idéia de um governo popular que ponha fim à subserviência em relação aos EUA aterroriza Washington. E deixa Tel Aviv de orelhas em pé, temerosos, ambos, que uma espécie de efeito dominó mude a correlação de forças no Oriente Médio.

Não importa que isso não aconteça agora, cedo ou tarde acontecerá.

A luta contra Mubarak diz respeito a todos os povos muçulmanos e do Oriente Médio. O ditador acabou. Milhões de egípcios estão nas ruas exigindo o fim do regime opressivo e colonizado.

E um detalhe sintomático que os EUA estão procurando alternativas confiáveis para suceder Mubarak. A REDE GLOBO, no Brasil, até as 18 horas de segunda-feira e em seus noticiários (no caso do Egito o que for autorizado pelo Departamento de Estado), referia-se a Mubarak como “presidente”. A partir daquele horário virou ditador. É outro sintoma. Foi jogado às feras.

Qualquer que seja a solução que encontrem EUA e Israel sabem que a revolta árabe, do povo muçulmano irá prosseguir. Até que haja uma solução digna para as questões que dizem respeito aos países e povos da região e principalmente para os palestinos. Saqueados, torturados, violados em seus direitos pelo estado terrorista de Israel, parte do conglomerado EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A.

O maior e mais perigoso conglomerado de violência e barbárie em todo o mundo.

Tony Blair apareceu para falar sobre o assunto e buscar a paz? Claro, é o boy da Casa Branca que afirmou ser indispensável a guerra contra o Iraque para destruir armas químicas e biológicas que não existiam (ele mesmo admitiu isso há meses atrás).

Hosni Mubarak acabou. Não tem mais serventia para seus patrões. Se ficar vai ser por conta da barbárie, o mais lógico, no entanto, é que vá viver num paraíso qualquer cercado de um harém, como acontece com o regime brutal da Arábia Saudita.

Comandante militar de fancaria, medalha por tortura, assassinato a sangue frio, traição, tal e qual qualquer militar em qualquer ditadura, inclusive a que nos escravizou no Brasil de 1964 a 1984. Não foi capaz de perceber a fragilidade do sistema de radares de sua força e nem levantou vôo.

Massacrou seu povo por trinta anos.